quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A UFPI pede socorro! - Por Valéria Silva*

(VS, 03/11/2009, às 09:42:00)

Caro/a leitor/a, sem surpresa ou sobressalto tenho lido num jornal local os inflamados apelos públicos do vice-reitor da UFPI, sugerindo e nominando, por fim, quão golpista, autoritária, cega, surda, reacionária, agressora, desleal, teimosa, anti-democrata, anacrônica, caprichosa, ilegal ... ufa!... é a postura administrativa do reitor da UFPI. No colóquio de alta classe, o magnífico também não se apequena: contra-ataca, apontando, textual ou indiretamente, que o seu vice é interesseiro, contraditório, hostil, bélico, furioso, mesquinho, individualista, politiqueiro, contrário à UFPI e agressor da lei e da moral. Rememore comigo: trata-se de um diálogo público entre dois doutores da academia, ocupantes dos cargos administrativos máximos da UFPI. Convenhamos: como pessoas públicas, protagonizam um vexame; como administradores, se descredenciam aos olhos de todo/as; como educadores, oferecem um péssimo exemplo.
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Desse espetáculo deprimente, incrédulo/a leitor/a, creio só podermos chegar a duas óbvias conclusões: a primeira, os contendedores devem estar corretos na avaliação que fazem um sobre o outro. Tiveram tempo e oportunidade ideais para se conhecerem, pois nada mais recomendável que a intimidade do poder para facultar a exata aferição sobre a índole de cada um/a, como ensinou Maquiavel, indispensável nesses tempos. Segunda conclusão, mais do que nunca, a UFPI corre perigo. A institucionalidade encontra-se em desmanche, sendo moldada aos interesses particulares, hoje reinantes. Na UFPI vige a anomia, também visível no fato de suas lideranças acadêmicas máximas digladiarem-se com tamanho despudor, vituperando o impensável, apelando ao flagrante desrespeito a todo/as e a cada um/a, à sociedade piauiense. Projetemos - eu e você -: se se portam assim publicamente, como se conduzirão esses senhores no recôndito dos gabinetes, dos conselhos deliberativos e comissões diversas, as quais controlam com mão de ferro? Reflitamos: é possível confiar na sensata ação de líderes desse quilate? Certamente, não.
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Dileto/a leitor/a, é de domínio público que, além da guerrinha desmoralizante dos seus gestores, a UFPI enfrenta atualmente um sem-número de graves problemas: processos judiciais-administrativos contra a reitoria e seus assessores, turbulências na Copese, dificuldades com a agenda do REUNI, inoperância na EAD, quebra de regimentos internos, exorbitância no desempenho de cargos e funções etc. e isso que assistimos é a ‘arrojada’ iniciativa tomada pelos atuais gestores. É inacreditável. É lamentável. É inaceitável.
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Não obstante a gravidade dos fatos, sem perder a indignação, conservo-me serena. Apresso-me, entretanto, em dizer que a minha fleuma decorre da constatação de que nenhuma das ‘revelações’ do vice-reitor desnuda qualquer novidade. Eu e muitos outros desta comunidade universitária experimentamos na pele e cotidianamente os efeitos deletérios de uma gestão soberbamente qualificada pelos adjetivos apontados. Diria mais: profundamente movida por interesses particularistas e marcada pela perseguição sem trégua àqueles que dela discordam. O exemplo mais recente de tal proceder foi a concessão do título de Doutor Honoris Causa ao Sr. Hugo Napoleão e o conseqüente tratamento dispensado aos estudantes que denunciaram o nonsense. Não me sobressalto também porque, por outro lado, identifico, de longe, táticas e estratégias plenas de pragmatismo adotadas pelo vice quando objetiva encurtar o caminho que o separa de seus interesses de poder e vaidade. Portanto, leitor/a, egos e interesses em rota de colisão não levariam a nenhum outro lugar senão ao desfecho ocorrido, típico das venenosas intrigas palacianas na disputa por nacos do império. Era o plenamente esperado.
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De todo modo, os textos das autoridades acadêmicas serviram para algo: as práticas aludidas deixam ver traição e desmoralização de parte a parte. Decerto, permanece na sua memória que esse vice não é o primeiro abatido em plena decolagem. A pequena biografia política do reitor está prenhe de oportunidades em que humilhou aliados de sangue, que a ele renderam o seu apoio, seus votos – em alguns casos, suas dignidades - e, depois, foram esmagados. Quanto ao atual vice, na última eleição para reitor - perseguindo aquilo que intentava consubstanciar como carreira de líder na UFPI – tramou contra a resistência política, da qual alardeava fazer parte, historicamente comprometida com as lutas por uma universidade pública, democrática, transparente, ética e de qualidade. Durante a campanha deixou que os princípios da boa política descessem ao chão e fossem suplantados pelo desespero ímpar de servir a qualquer custo, para merecer um lugar no seleto clube do mandonismo, bem ao estilo apontado por Etienne de La Boétie. Distinguindo no horizonte apenas o lampejo do seu desejo mais particular, espantado/a leitor/a, o vice juntou-se ao que de pior existia em termos de política universitária, ensejando, inclusive, o revigorar, pelo efeito Fênix, de forças políticas atrasadas, então já descartadas do nosso convívio. Obediente aos seus senhores de então, rapidamente aprendeu a dizer inverdades sobre seus ex-companheiros e a sustentá-las em discursos públicos olhando firmemente nos olhos de seus pares. Detratou pessoas e coletivos que lhe haviam providenciado abrigo por décadas no contexto da luta por uma UFPI renovada. Mas, assentado em pés de barro, pouco andou e agora, defenestrado do bloco do mando, ridicularizado nos círculos do poder, foi rejeitado também por seus amigos-aliados de Centro (CCHL) da última campanha, ora fidelizados ao reitor e às regalias da situação. Hoje o vice lidera o séquito de um homem só.
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Já abusando da sua paciência, tolerante leitor/a, digo-lhe, finalmente, que o quadro geral nos impõe uma contingência inarredável: a UFPI pede socorro e a nós todo/as cabe responder a esse chamado urgente e dramático. A comunidade universitária, os vestibulandos, os estudantes secundaristas, as entidades de classe, o movimento social, a mídia, os governantes e a sociedade piauiense estão, mais do que nunca, instados a se preocupar seriamente com os destinos da UFPI, se não quisermos perdê-la irremediavelmente para os propósitos mesquinhos dos oportunistas de plantão, do passado e do presente, de todos os matizes e discursos. Afinal, nas razões pelas quais se movem e nas práticas que adotam, ameaçam igualmente a UFPI como patrimônio do povo brasileiro e piauiense. Do presente e do futuro.
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*Dra. em Sociologia Política. Professora da Graduação em Serviço Social; do Mestrado em Antropologia e do Mestrado em Políticas Públicas-UFPI.

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