terça-feira, 29 de setembro de 2009

Sarau lítero-musical movimenta a Casa da Cultura


Segundo o poeta Mário Quintana, "só a poesia possui as coisas vivas". Assim sendo, acontece nesta quarta-feira, dia 30, o primeiro Sarau da Casa da Cultura, a partir das 19h30. A noite contará com poesia, música e gastronomia, além de homenagens aos poetas Murilo Mendes e Graça Vilhena. No cardápio music



al, estarão composições de Noel Rosa, Cartola e Nelson Cavaquinho, interpretados por Luiza Miranda, Josué Costa e músicos convidados. Para alimentar o corpo, o serviço de buffet ficará a cargo de Waldyr Borim.




"Nossa proposta é que os saraus aconteçam nas últimas quartas-feiras de cada mês", afirma a diretora da Casa da Cultura Jôsy Brito. A iniciativa, que terá sempre uma programação lítero-musical, é mais uma ação da Prefeitura de Teresina por meio da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves com o objetivo de estimular a população de Teresina a perceber a Casa da Cultura como um espaço de vivência cultural na cidade.

Um pouco sobre Noel
Noel de Medeiros Rosa (Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1910 — Rio de Janeiro, 4 de maio de 1937) foi um sambista, cantor, compositor, bandolinista, violonista brasileiro e um dos maiores e mais importantes artistas da música no Brasil. Teve contribuição fundamental na legitimação do samba de morro no "asfalto", ou seja, entre a classe média e o rádio, principal meio de comunicação em sua época - fato de grande importância, não só o samba, mas a história da música popular brasileira.





Então coloque na agenda. Amanhã na Casa da Cultura apartir das 19:30h.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Crítica: Arnaldo Antunes: Iê Iê Iê

Poucos compositores brasileiros têm tanta habilidade com letras quanto Arnaldo Antunes, e seu expertise nessa área é tão incrível que mesmo ele não sendo um grande cantor (apesar de sua abençoada “voz de petróleo”, como bem definiu meu amigo Thiago E, do Validuaté, a quem o trabalho de Arnaldo Antunes é uma influência inegável), suas música são uma experiência ímpar na “nossa música brasileira”!

Iê Iê Iê, seu novo disco, traz de volta um Arnaldo Antunes vigoroso, quase adolescente de tão energético. A produção de Fernando Catatau (Cidadão Instigado, que também lançou recentemente um novo álbum, Uhuu!) é uma presença notável. O disco traz um espírito guitarreiro e uma sonoridade setentista típica dos trabalhos de Catatau.

As novas música pouco exploram da “voz de petróleo” e vão muito mais nos agudos meio capengas de Arnaldo Antunes, mas isso nem de longe é demérito ao disco, pois casou-se tão bem com os arranjos e as letras são tão fortes, que isso passa tranquilo! Destaques para a música título do álbum, que brinca com a celebrização da mídia (ele já pode também!); A Casa é Sua, uma balada incrivelmente bonita (fiquei morrendo de vontade de pegar o violão e tentar aprender!); Envelhecer, que tem uma das letras mais bonitas que já ouvi (“Não quero quero morrer, pois quero ver como será que deve ser envelhecer[...]e quando eu esquecer meu nome que me chamem de velho gagá!”); e Sua Menina e Meu Coração, também baladas (claro, com muito mais subtância que a média!).

domingo, 13 de setembro de 2009

QUESTÃO DE FÉ




Até que tenho tentado
Mas não encontrei
Minha religião

Esses deuses
Querem os homens curvados
Sussurrando preces e orações

Demoro-me um tempão
Olhando as borboletas
Flexibilizando as asas

As borboletas e alguns bichos me dizem tudo
Alguns deuses não me dizem nada.



Rdonasilva é coordenador de Cultura da Unidade do SESC Centro, poeta nas horas vagas e uma
aquisição para a minha pasta de amigos nesse ano.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Popciência: A festa do ladrão de sonhos

Esta semana resolvi falar um pouco sobre Ivan Ângelo. Mineiro, jornalista, escritor, nascido em 1936, este senhor ainda espera ser descoberto pelas massas, e estas necessitam conhecê-lo urgentemente para se afastar um pouco do festival de mediocridades que tomou conta dos meios de comunicação, da música, e, por que não dizer, da educação brasileira. Quando falo da necessidade do povo entrar em contato com sua obra, não é apenas uma opinião pessoal. Por exemplo: digite no Google o nome do ator e você verá o quão respeitado é seu trabalho entre jornalistas, literatos e apreciadores da leitura em geral. Seu livro “A Festa”, de 1976, é exigido em muitos vestibulares Brasil afora.

Mas nada do que se diga dá idéia da riqueza do seu trabalho. O primeiro livro de Ivan que eu li foi “O ladrão de sonhos e outras histórias”, uma seleção de contos. Na verdade, eu cometi um crime: estava numa biblioteca da escola onde minha mão lecionava e me deparei com aquela capa. Eu estava começando a tomar gosto pela leitura de livros, impulsionado pelos quadrinhos e pelas revistas de música. Não resisti e escondi o livro embaixo da camisa e fui para casa. Na verdade, só o li quase um ano depois. E como me arrependo. A narrativa é direta, simples, mas sem ser popularesca, fútil. A construção dos personagens, a carga psicológica que envolve cada conto prende o leitor do início ao fim. São contos independentes, mas de certa forma interligados, como fossem acontecimentos simultâneos no dia-a-dia de pessoas totalmente diferentes. Quando assisti a “Crash – No Limite”, lembrei imediatamente deste livro. O garoto que entra na gaiola para compreender o significado da privação da liberdade, os ex-hippies que formavam um triângulo amoroso, o homem sem memória perdido nas rodoviárias, o ladrão de sonhos, o adolescente que pula o muro para se encontrar com a vizinha mais velha, todos são personagens que poderiam muito bem figuras no filme de vida real, entre nó, e, aliás, poderiam até ser um de nós; cada um deles pode ser visto como uma metáfora para o comportamento humano: o medo de ser apanhado, de perder a memória, de ser condenado pelo passado, o primeiro amor, a inteligência a serviço do mal, a dependência do emprego num escritório. Tudo é narrado com uma fluência quase musical, o que me faz sempre comparar as obras de Ivan com aquele disco que volta e meia você tem vontade de ouvir.

Mas a obra-prima do autor é, sem dúvida, “A Festa”. Ambientada no ano de 1970, a história tem como pano de fundo um embate entre a polícia da ditadura e grupo de retirantes nordestinos, onde direta ou indiretamente os personagens do livro se envolvem. A narrativa é reflexo da formação literária do autor, grande apreciador dos clássicos de Alexandre Dumas e Vitor Hugo. Os capítulos são direcionados aos personagens mais marcantes da historia; inicialmente pode parecer fragmentado demais, mas à medida que a os fatos se desenrolam, as vidas vão se entrelaçando de uma forma que não deixam você largar o livro. Além de ser uma leitura extremamente agradável, a reconstrução da época é perfeita, até por que foi um momento que o autor vivenciou. A descrição das ações do governo para conter os “subversivos” tornaram Ivan um possível alvo dos órgãos censores, pois a realidade é mostrada nua e crua, sem aquele espírito “90 milhões em ação”, “ordem e progresso”, “ame-o ou deixei-o” e “salve a seleção” que a ditadura fazia questão de passar e que muitos brasileiros aceitavam, ou por que eram obrigados, ou por que não queriam se intrometer. O advogado medíocre, o jornalista idealista, o ex-cangaceiro, a colunista mal-amada, o operário que tem a mão esmagada, o casal idoso que vive às voltas com a morte, são figuras ímpares, cada um com sua conduta e sua própria moral. Uma obra não menos que genial.

A geração de Ivan Ângelo nos deu outros grandes autores, como Inácio de Loyola Brandão, Nirlando Beirão, Zuenir Ventura, dentre outros. Por um motivo ou outro, por um livro ou outro, alguns destes ficaram mais “pop” do que Ivan. Mas mente iluminada deste escritor deu à nossa literatura alguns de seus melhores capítulos. Não querendo desmerecer os outros, mas fiquei um tanto decepcionado quando, há alguns anos atrás, no Circuito Cultural Banco do Brasil, aqui em Teresina, numa palestra sobre crônicas, da qual participava Ivan Ângelo, poucas pessoas o conheciam e o cumprimentavam por seu trabalho. Talvez porque a platéia estivesse repleta de estudantes de jornalismo e todos quisessem mostrar que haviam lido a história de Chico Mendes, de um dos autores citados, para demonstrar sua pseudo-intelectualidade, talvez por que não era um rosto conhecido. Eu falei com o cara e ele é legal. Meninos e meninas leiam “A Festa”, por favor! É para o bem de vocês...